sábado, 23 de novembro de 2013

TRAIPU TERRA DA GENTE CAVALOS DE MANCAMBIRA Menino fica feliz com pouca coisa, brinquedos simples, feitos com capricho, e com sacrifício, do próprio punho. Assim eram os cavalos de macambira, que brincávamos pelas ruas poeirentas de Traipu,naquela época.Íamos no mato a procura de fecha retas e resistentes,que ficavam no meio da plantas de macambira,uma bromeliácea comum na caatinga traipuense,principalmente em cima dos morros de pedras.O morro do Urubu,onde hoje existe muitas pocilgas era cheia daquela planta.Procurávamos fazer uma cabeça para o cavalo,da parte mais grossa da flecha,com capricho,colocávamos cabresto e saímos em grupo de mais de dez meninos a correr de rua afora,na maior euforia,como se fosse uma cavalgada.E era sim, nós pequenos,brincávamos o dia todo,feliz da vida,parando nossa diversão, depois de bem cansados ,mas realizados. Lembro que um amigo nosso,filho de um rico,chegou com um cavalo de pau comprado na praça,com duas rodinhas ,cuja cabeça tinha até cabelo.Foi brincar conosco,mas ficava diferente.Apesar de ter requinte,pra gente,aquele cavalo parecia ser leproso,o nosso era melhor.Recordando , vejo como os valores,hoje, são diferentes. Não se vê mais os meninos brincando daquele jeito..Hoje, ficam no pé duma televisão assistindo desenhos ou jogando games. A gente corria, fazia exercício, gastava energias, era feliz.As vezes saia pequenas brigas,mas era natural.No outro dia tava tudo bem.Com toda dificuldade existente,com certeza ,melhor ser menino,naquele tempo. TRAIPU TERRA DA GENTE Ciro Machado TRAIPU TERRA DA GENTE SECA DE SETENTA Abril, nem um pingo de chuva. Haja simpatia, rezas e experiências. Roças queimadas limpas esperando a chuva chegar para começar o plantio. O gado já seco de tanto caminhar a procura do rio, o ano que passou não deu nada, o milho as bonecas não vingaram por falta de chuva,nem capuco tinha nas poucas espigas que se via.Todo feijão plantado, as plantas viraram pó.Via o gado batendo o queixo no chão ,para ver se abocanha alguma folha ou palha seca dalgum capim. Muitos agricultores,olhavam pra cima o sol fino,sem nenhuma nuvem.Eu via o Luiz dos Anjos que olhando pra cima dizia:Deus tenha piedade de nós,mande alguma chuva.Nenhum sinal no céu.O povo já passava fome.A única farinha que aparecia na feira era a tal de fogo pagô,rola voou,pior sem ela, muitos outros nomes que se criava em ironia a qualidade ruim.Houve até ataques nas feiras,às bancas de cereais, aglomerações na porta da prefeitura.Aparecia alguns retirantes, até um tal de” Reis “ vestido numa bata tipo um chambre,cabelos compridos.Era um lunático rezador fazendo procissão para chover,tipo Antonio Conselheiro.Quanto mais rezava mais o sol esquentava. O barro rachado seco e duro ,que nem pedra das barragens ,parecia com os pés rachados do sertanejo, lavrador dessa caatinga calçados nas alpargatas de sola,quando iam pra roça.O único alimento suculento para o gado,só o mandacaru cortado sem os espinhos,colocados nos balaios para as reses mais fracas.O xiquexique preto da cinza, com os espinhos queimado oferecido inteiros ,a macambira também sapecada batida eram jogadas no chão ,para ver se salvava o rebanho.Já tinha vaca na correia,comendo uma palminha com farelo de algodão para não morrer a míngua.Se fazia uma tenda por cima.Mas caiu,não tem mais força de levantar,morre.Era trabalho perdido.Aquilo que se fazia, é por pura caridade ao bicho que sofria,dava dó de a ver mugir pedindo socorro.Doía no coração.Enquanto a gente cortava os espinhos dos mandacarus,para depois oferecer as rosetas a elas,o gado com fome,comia aquele monte de espinhos,juntos num canto do tronco cortado, arriscando furar sua boca,tamanha era a fome.Mas tudo que se dava não bastava.Era pouco,os bichos estavam famintos.Os cavalos dos meus amigos que pastavam la na caatinga,também sofriam,sobre viviam porque eles traziam de suas casas,reforço de milho inchado,que ficava em molho dum dia para outro.Os cavalos pastavam em minhas terras para em troca me ajudarem a arrebanhar os animais até o rio, com mais de dois quilômetros de distancia .Bebiam muito,até demais,mas quando voltavam ,já estavam com sede de novo.Tornavam beber no outro dia.Era uma agonia.Nosso vaqueiro desistiu de trabalhar para nossa fazenda,procurando outro rumo ,outro lugar.Sua remuneração era quarteação.De cada quatro bezerros nascidas ele tinha um.Mas com aquela seca medonha,vaca nenhuma agüentava parir.Também não agüentou aquela agonia.Passou o tempo, sem um pingo d’água vindo do céu,entrou julho e nada,o gado morria seco de fome e sede.O urubu,não comia mais a carcaça,não encontrava mais carne,só couro e osso.Até ele também, estava migrando,passando fome no Sertão. A gente olhava pro infinito, já não avistava mais nenhum urubu.Mas para tudo tem um fim.Uma quentura diferente tomou conta daquele lugar,o tempo mudou,o mundo escureceu,e de repente um temporal desabou,a chuva bateu no chão levantando o aroma da terra molhando.As grotas correram, os açudes encheram.Os bichos pulavam de alegres os cachorros latiam felizes na chuva,os cavalos corriam e relinchando se empinavam.O bezerros saltavam em pulos curtos.Ate os meninos curtiam o banho de chuva que há muito não aparecia.Brincavam pelas biqueiras das casas.O povo já pode plantar .Muitos iam para as roças , plantavam milho, feijão e abobora,não podia mais perder tempo.Poucos dias mais, o verde mudou a cor da paisagem , já ninguém via mais aquela tristeza cinzenta que pairava antes, naqueles ares do sertão.Tudo tinha verde,tinha vida,tudo tinha se transformado.Como pode a natureza se vestir daquele jeito com um tapete verde aveludado,com uma rapidez daquela.Só mesmo coisa de Deus.E foi. Ciro Machado TRAIPU TERRA DAGENTE COISAS DA VIDA CANOA DE PENA Segundo historiador Medeiros Neto, a beira do rio de Traipu tinha muitas gameleiras e tamarineiras. Tamarineiras ,conheci e ainda hoje tem uma no porto de cima e mais duas na Rocheira. Marizeiras,arvore frondosa,mas baixa, ainda conheci uma perto do porto das lanchas onde o povo utilizava com estaleiro de canoa de pesca e tinha uma na porta d água da Lagoa do Padre, chamado P orto da Areia,hoje Av. Beira Rio.Mas tinha por perto muitas Timbaubas árvore grande frondosa,cuja raiz se faz artesanato.Nós meninos, da época ,utilizávamos para fazer canoa de pena,como também da madeira do mulungu,seco.Eram canoinhas compridas onde colocávamos penas de peru,para receberem impulso do vento.Tinha um leme reto de uma madeira fina.De meio dia em diante ,o vento estava forte.Era hora de colocarmos para pegar parelha,apostar corrida.Quando ela era de raiz de Timbaúba,corria demais,e ninguém conseguia recuperar.Sumia no infinito do rio, acima.Geralmente o lugar ideal era nas coroas de areia,frente a Traipu.Essas lembranças.voltam ,porque fazem parte de nossa infância,fazem parte da historia dos menino de Traipu.Acho que as brincadeiras dos meninos não devem ser esquecidas.Talvez esse tipo de brincadeira não existisse em qualquer outro lugar do mundo,fosse coisa particular do baixo São Francisco.Toda infância tem uma historia,que merece ser registrada.Vida boa sei que era.Voltar ao tempo sei que não.Mas lembrar faz bem,e como faz .São coisas de nossa vidas. Ciro Machado TRAIPU TERRA DA GENTE BANCO DE PROPRIÁ Miltinho,muito amigo dos funcionários do Banco do Brasil de Propriá,gerente e todos de lá,soube que aquele Banco tinha um linha de credito subsidiado,para ajudar agricultores,prejudicados pelas secas do ano 70 .Chegou em Traipu avisando as pessoas que poderiam se beneficiar daquelas verbas.Juntou muitos fazendeiros mutuários que precisavam de ajuda.Nos também necessitávamos construir açudes e comprar gado para repor as cabeças perdidas na seca, alem de outras obras mais, como construção de cercas ,plantio de palma.A Joelina, canoa chata de Tonho Bulachão saiu cheia na quinta feira a noite.Tínhamos que amanhecer o dia no porto de Propriá.Tonho zingando, de rio abaixo,porque pela noite o vento fracassara e os panos quase não enchiam de vento para fazer os bordos,a rota mais ligeira, era reta,pela linha da correnteza. O jeito era zingar na popa,enquanto o vento não ajudava.Afinal são mais de sete léguas de rio abaixo.Mas na volta, a tarde o vento ajuda,e com panos cruzados a gente chega mais rápido.Os passageiros deitados em redes armadas por cima de esteiras onde outros também dormiam,alguns dentro de capote,na popa em prosa com Bulachão.Na tolda de lona improvisava uns contavam lorotas,sob o clarão dum farolete, próprio de canoa,aquelas pequenas placas cujo vidro protegia a luz do vento.Lembro de seu Benedito de Olho d Água,Mane Pedro, da Pedra D água,Julio do Feijão,Zú de Manueis,Luiz de Zezinho da Regalada, e outros mais.Amanhecemos, como esperado naquela cidade.Fomos para um restaurante ,no Café Propriá,onde saboreamos ,na padaria dali um pão com manteiga regado a café com leite.Chegamos na agencia que abria as sete.Miltinho tinha ido no seu Jipe, com Barroca.Já nos esperava no Banco.Era nosso interlocutor ,nossa ponte entre o gerente e os funcionários. Ele gozava dos maiores privilégios. Tudo acertado cada um ,saiu com seu negocio resolvido.Todos alegres e com a grana no bolso podia até exibir o pacote de dinheiro,não existia ladrão,naquela época.Se perdesse algum dinheiro, porque caiu do bolso,mesmo assim , alguém achando,entregava,devolvia.O povo era de bem,podia-se confiar não existia golpes,ou coisa parecida.Havia os bons costumes.Eram pouco anos depois da ditadura,que apesar das mazelas deixou muita gente na linha.Ainda respeitavam ,e todos andavam na linha.Já em poder do empréstimo,alguns do nosso grupo, batiam no bolso,se achavam agora,ricos! Benedito de Olho d Água era muito conversador,gostava de uma prosa,e quase cego,com um óculos de fundo de garrafa.Na hora de sair, daquela agência trombou com a porta de vidro ,caindo para trás.Levantou-se e perguntou ao recepcionista do Banco:quebrou? Porque se quebrou, eu pago, pode botar na minha conta. Por sorte dele,e daquela repartição, o que se quebrou foi a cara dele ,por isso teve que fazer curativo na primeira farmácia, que ficava bem pertinho do Banco e seus óculos,tendo que comprar outro com urgência.São coisas da vida. Ciro Machado TRAIPU TERRA DA GENTE JOGO DE CASTANHAS Novembro,dezembro é tempo de caju,aparecendo bastante castanhas.Nós aproveitávamos e brincávamos e usávamos como mercadoria de aposta.Depois de ganho um bocado,servia para assar,em tachos improvisados pelos monturos.Coisas de menino .Tinha dois tipos de jogos :os de buracos de paredes por onde desciam as águas da chuva,vinda das calhas, do telhado das casas, as biqueiras dos platibandas.Lembro que quando acertávamos de primeira,o som ecoava em cima como um trombone.Teríamos que acertar naquele buraco.Cada um jogava a sua.Quem acertasse por ultimo era o ganhador.Ou seja o que errasse dava sua vez ao outro até um acertar.Os donos das casas não gostavam ,diziam que se jogasse com força , quebrava.Eram de cerâmica queimada.Mas jogávamos escondidos.Acho que naquele tempo, não existia canos de plástico.Não tinha sido descoberto ainda o PVC.Tinha o outro jogo no chão, no teço,ou seja tinha que acertar uma na outra castanha,como se joga chimbra ou marraite, os nomes comuns em Traipu de bolas de gude.Tinha que tecar uma na outra mesmo de raspão,mas dava bastante discussão por mal interpretação ,se acertou ou não.Quando acertasse ganhava.Sei que sempre dava briga no fim.Quem perdia não se conformava ,terminava brigando,para recuperar o perdido.Um dia fui jogar com Themo de Veterinário.Eram dois irmãos, estranhos que chegaram em Traipu,filho dum vacinador de gado que o povo chamava de veterinário.Tonho e Themo dois briguentos e bagunceiro,maloqueiros perdidos.Mas quando eu tava com meu irmão Ivan,eles me respeitavam. Eu temia o mais novo Themo ,que sempre me chamava para brigar, me desafiava,pra mim era uma ameaça,Ele vivia de peito empinado,parrando que era o tal. Sempre me acovardei, não queria brigar, medir força com o dito.Nesse dia , jogando com ele, por muita insistência da parte dele,ganhei todas as castanhas.Já tava de bolsos cheios. Ganhei o resto, mas, não quis me entregar, essas outras. Ainda por cima me deu um empurrão.Sabia que não apanhava dele,era só receio.Foi a faísca para que eu explodisse.Voei como um leão enfurecido, em cima do cara ,com toda raiva e força que possuía,derrubei-o no chão,coloquei sob meu jugo e esfreguei bosta de cavalo na boca dele.Dizia para desmoralizá-lo:-coma safado,vai coma,até que, ele chorando me pediu por Deus ,que o soltasse. Santo remédio. Passei a ser respeitado por ele e muitos outros da iguala dele, que viram minha façanha, minha força. Os do meu top,do meu tamanho,tinham que me deixar em paz, não me provocarem,porque na verdade nunca fui briguento.Um dia é da caça,mas o outro é mesmo do caçador.Coisas da vida.

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