sábado, 23 de novembro de 2013

Ciro Machado TRAIPU TERRA DA GENTE A RIBEIRA BOTOU O dia amanhecia alguém dizendo que a ribeira botou. A noticia ia se espalhando, o povo aos poucos descia, em direção ao Rio são Francisco, queria saber por certo qual a ribeira que está correndo, a do Traipu ,ou do Panema. Se for do Rio Ipanema a água escurecida está lá no meio do São Francisco,beirando a Tabanga, nas alturas do Buraco de Maria Pereira.Se for do rio Traipu as águas barrentas ,descem pelas beiradas próximo ,do porto da cidade.Do lado de cá.De Alagoas.Mas era do Traipu mesmo.Dava para ser ver o filete escurecido que se misturava com a água limpa do velho Chico.Bagaços de matos e pedaços de paus já começavam a descer.Araras e outros pássaros, passavam voando a procura de lugar firme .Avisavam que de onde vinham ,vinha muita água.estava tudo cheio.Os anus pretos agouravam em bando a tragédia que iria acontecer.O bem te vi,com seu jeito de avisar , cantava bem te vi se esquentando num raio de sol que surgia.Tudo contribuía,para um desastre ecológico.As nuvens no céu escurecidas e pesadas,anunciavam mais chuvas,mas que tinham dado uma trégua ,tinhas parado na cidade. As águas que chegavam eram das cabeceiras que aos poucos aumentava , a força e a largura com o volume maior, que descia.Todos observavam a velocidade e a fúria aumentando a cada minuto.O barulho dessas correndo da ribeira, rolando sobre as do rio São Francisco,já se ouvia cada vez mais alto.As espumas escurecidas dos barrancos que se misturavam,rolando com violência, tomavam conta de toda extensão da margem até o meio do rio.Parecia uma pororoca.Ninguém se atreveria colocar alguma canoa naquele meio.Seria fatal com tanta violência. Era um ronco de águas encachoeiradas que ensurdecia.Forte que nem um barulho dum avião.A quantidade d água vinda de cima, subia assustadoramente. Descia galhos,arvores inteiras,aguapés,capins,canas,coqueiros,e tudo que encontravam pela frente.Não respeitavam nada.Parece que a natureza quer se vingar do desmatamento ,que fizeram nas margens desses rios.Os barrancos inteiros são arrasados parecendo ilhas flutuantes.Passam inteiras com bichos em cima.Agora já aparecia dentro desse meio, vacas boiando, umas já mortas outras se afogando,mas vivas.Cavalos e outros bichos, muitas serpentes, camaleões,teiús,e tudo mais,até ratos.Muita gente do oitão do sobrado de Berilo Mota,da banca do peixe,a observar de olhar firme naquele espetáculo que dava medo.Parecia mais um filme assustador,de destruição.O povo que tinha barcos, na altura do porto da areia ,onde a força d água já era menor, encostavam suas canoas e puxavam aqueles animais ,salvando-os fracos mas com vida.Outros não agüentavam eram sacrificados e aproveitado as carcaças.De Adilmo,um fazendeiro do Oiteiro, pegaram diversos garrotes,e devolveram para ele. Canoas e barcos de pesca também passavam, mas eram resgatadas e trazidas para o porto. Muitos queriam ajudar,poucos podiam. Outros só tirar proveito da situação.Nunca se viu uma ribeira desse porte em volume e força d água.Tinha gente que pegava troncos de arvores para lenha ou outro aproveitamento. O ronco daquilo que se ouvia, dava para se escutar muito distante, talvez quilômetros. A chuva já tinha parado.Só pingos de vez em quando caiam. Mas as águas continuavam aumentando,vindo de muitas léguas,dos riachos afluentes desse Traipu.Só podia ser das cabeceiras.No Oiteiro,perto da Tapagem nas terras de Novinho,do lado oposto a Traipu,estava João de Sizino que vinha da sua Fazenda nas Queimadas.Seu bote amarrado numa Marizeira iria afundar se não tirasse logo, porque a água subia com rapidez.Com a corrente amarrada na sua coxa ,conseguiu subir mais, na arvore para quase o topo.Agora,sentindo-se mais firme, segurava a corrente do barco.Pacientemente e talvez com muitas orações,ficou esperando melhorar a situação, a melhor hora, para poder tomar outra medida.Atravessar com segurança.Deixaria as águas aclamarem mais um pouco. Sofreu muito,ficou com marcas da corrente na coxa e nas mãos,mas venceu ,conseguindo depois.Zé Beato,outro agricultor,vinha do Sitio Oiteiro , também subiu em cima doutra Marizeira, esperando que água acalmasse, para poder voltar.)Estavam muito preocupados,tremendo de frio,só pensavam no pior.O maior temor, era esmorecer, não ter mais força, não resistir,e as árvores não agüentarem intactas.Eles observavam outras arvores serem arrancada com raiz e tudo,revirarem,mostrando as vezes as raízes ,no ar,também cercas de arame farpado ,sumirem rodando com as ondas,a bagaceira toda girando.Desesperado, o Zé Beato,já sem paciência ,aflito,teve medo da arvore que estava em cima, ser arrastada, pensou pouco , e se jogou nas águas,tentando atravessar nadando .Tudo ou nada .Arriscou sua vida.A correnteza muito forte ,em ondas ,arrastou-o,lhe dando um sumiço.Perdeu o que mais precioso tinha.Faltou perseverança.Não conseguiu vencer a fúria do lugar que se atirara,era impossível,vencer a brutalidade daquelas águas em redemoinhos. A ribeira do rio Traipu é margeada por fazendas de criação de gado onde seus proprietários ,usam cerca de arame farpado, ate a metade, para no verão, com o leito quase ,seco aproveitar as gramas verdes que nascem e crescem,servindo de pasto,como também utilizarem bebedouros nas pequenas panelas formadas aquele leito..Essas cercas ,são pegas de surpresas,nessas enxurradas, indo todas se misturarem com arvores,barrancos e areias, numa miscigenação liquefeita de não sobrar vestígios visíveis ,do que se procura. Alguns acham que aquele senhor se enroscou,enganchando , nalguma cerca,sendo enterrando pelas areias em movimento,e que são , muito comuns no fundo do rio Traipu.Só sei que nunca mais ninguém viu nem um sinal.Procuraram por todo o baixo são Francisco,até a praia,e nenhum sinal.Esse foi um caso misterioso,porque não se tem nem como procurá-lo.Mais de ano depois,a justiça considerou sua mulher viúva,para questões de aposentadoria e oura coisa.Ele ,o Zé Beato era vigia da Antiga Emater,hoje pertencente a secretaria de Agricultura do Estado.Que sua alma descanse na paz do Criador! Ciro Machado TRAIPU TERRA DA GENTE A SANTA MISSÃO Traipu esperava ansiosamente a chegado do capuchinho mais querido do Nordeste, para fazer a santa missão. Multidões lhe esperavam, com aplausos, fogos e alegria.Já vinha de outras cidades e de outras pregações,sempre seguindo por pessoas que lhe faziam companhia , só retornando depois de bem acomodado.Era costume ,a comitiva daquela cidade que se despediu, acompanhá-lo até a outra que o recebia. Tinha o nome de Santa Missão as pregações realizadas por Frei Damião em todas cidades por onde passava.Frei Fernando sempre o acompanhando.Tive o privilegio de assistir a muitas,principalmente as primeiras organizadas pelo grande pároco Padre José Batista de Azevedo que o hospedava em sua casa, ao lado da igreja,O pátio da igreja, ficava cheio por dia e noite.Todos sabiam da noticia com antecedência,aproveitando a oportunidade de presenciar aquele homem santo.Valia a pena vir assistir aquele culto ecumênico.Ainda me lembro,que pela primeira vez que frei Damião veio a Traipu eu deveria ter menos de oito anos.Traipu sem movimento se transformava num lugar agitado, de peregrinação,de romaria.As pregações de Frei Damião eram atenciosamente ouvida por todos.Nunca esqueci delas ,pelo fato de ser extraordinário o que via e que ouvia.O povo sofrido, com uma fé tremenda, nas palavras daquele frade,que já tinha fama pelos lugares onde pregou os sermões.Vinha gente de toda redondeza,dos povoados de Traipu das cidades vizinhas Girau,Lagoa da Canoa São Brás,Gararu,Nossa Senhora de Lurdes ,Itabí Amparo, para ouvir os conselhos daquele pregador de batina marrom,cabelo aparado ,um franciscano, humilde,sempre de sandálias de correias no calcanhar,inteligente ,de boa oratória, apesar das palavras curtas apressadas,cujo conhecimento da Biblia que superava outros pastores conhecidos.O interessante de tudo que eu via,lembro como se fosse hoje,é que ,quando falava ninguém dava um pio,todos queriam ouvir sem perder nenhuma palavra.E não existia auto falante,ou amplificador.Muitas palavras ,eram duras demais,parece que dirigidas a cada um,mesmo assim, todos de atenção redobrada escutavam.Na hora das orações,ele puxava ao canto dizendo:Senhor Deus,pela Vossa Mãe Maria Santíssima,Misericordia... todos num coro uníssono :-Misericordia.A multidão, numa voz ,respondia como se tivessem ensaiado,num entrosamento de encantar.A emoção era grande ,mesmo menino, sentia na alma.Parecia que aquelas palavras, daquele canto iam alem, ao infinito, era assim que dava para ver, sentir,o eco no céu,do conjunto de todas as vozes,sumindo no silencio duma cidade atenciosa.Não existia carros,motores,ou qualquer coisa que tirasse a concentração.Era lindo!Eu,guri,mas ficava encantado,as lagrimas apareciam em muita gente com emoção.Isso era fantástico.Como podia um simples frade baixinho,falando mal o português,conquistar o coração de tanta gente,contagiar daquele jeito!Tinham muitos que dizia, esse frade é santo.Palavras sábias , sei que dizia.Tinha alguns que não queriam ouvir certas verdades,porque ia doer na alma,como se tocasse na ferida de cada um.E quem não tem pecado?que atire a primeira pedra!É como Jesus falava,Quem quiser que me siga.O os discípulos diziam, A quem vamos Senhor,se só o Senhor é quem tem palavras de vida.Eram palavras de vida que Frei Damião falava,tiradas do evangelho.Muitas delas iam direto no ponto fraco de cada um,por isso é duro demais.Mas mesmo assim todos escutavam , queriam sempre ouvi-lo, outras vezes mais.Tinha Frei Fernando,esse outro frade capuchinho,sempre o acompanhando, falava bem,e cantava melhor ainda.Voz muito bonita no ritmo e boa melodia.Mas a estrela sempre foi Frei Damião.Comitivas acompanhavam para vender livros, santinhos,e outros, ate lanches.Era festa. Os de melhores condições, queriam ter o prazer de oferecerem, as refeições aos frades.Eram convidados especiais dos políticos e ricos.Seu Gonçalinho sempre tinha o melhor almoço para eles..A despedida muitos acompanhavam até onde não mais podiam ver,mas diante do vazio,ficava a paz deixada por aquela criatura de Deus.Quanta saudade das Santas Missões de frei Damião.Nenhuma que ainda tiver,poderá se comparar aquelas passadas.A euforia e alegria,que os fies sentiam era tanta ,com tanta paz,que parecia uma cidade santa.Todos queriam vê-lo de pertinho até pega-lo, passar a mão nos cabelos,na batina,sentir o contato,porque achavam-no, santo.No Ato dos Apóstolos,conta que São Pedro quando passava ,todos queriam tocá-lo,ate sua sombra ,o povo, aproveitava com a esperança de serem curados,de haver algum milagre.Dava uma impressão assim.Mas Frei Damião,nunca prometia cura ,para males do corpo.Nunca prometeu milagres.Ele pregava a cura da alma. Mas o povo queria uma prova, esperando , alcançar algum milagre.Tem quem diga que obteve graças ,com Frei Damião.Mas a verdade é que ele nunca disse que curava ninguém.Quem pode curar,só Deus.Frei Damião foi Homem de pregação,foi divulgador da palavra.Nunca conheci pessoalmente algum religioso tão especial.quanto Frei Damião.Palavras sábias,ensinamentos preciosos,pregador do bom comportamento e bom costume,um católico fervoroso,combativo do mal,do inimigo.Dizia claramente quem não seguisse os mandamentos estaria se condenando,iria para o inferno.Ele era um homem de santas palavras. Quando andava de um lugar para outro, sempre apressado. Talvez pelo assédio que sofria,vendo muitos querendo tocá-lo,e naquela danação, levava até puxões .Sei que muita gente tentava acompanhá-lo quando caminhava,e não conseguia.Aquele baixinho que mesmo depois de velho e corcunda,parecia ter um motor ou uma roda nos pés.A batina cobrindo seus passos ligeiros,cuja resistência,para a idade que tinha era de admirar.Há quem diga que ele andava sem mexer os pés.Mas não acredito nisso.Agradeço a Deus de te-lo conhecido,foi uma benção.Meu grande pastor,que Deus lhe recompense, por ter escolhido nós, os sertanejos como seus ouvintes,e seus discípulos.Fica na paz de Cristo! Ciro Machado

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